
Assim o clube não tem um endereço fixo há anos. A última tentativa ocorreu no começo desta temporada, quando um empresário do ramo de uniformes montou por conta e risco próprios a ‘Loja Oficial do Mixto’, no centro da Capital. Além de investir alta soma na produção de camisas e toda sorte de produtos licenciados com a marca do clube, o empresário também pagava o aluguel e as despesas trabalhistas do empreendimento, que infelizmente não vingou. A loja ficou às moscas e o prejuízo era certo, tanto que teve que fechar as portas; desmontando a galeria de troféus e fotos antigas, que davam ares de museu a sala reservada nos fundos.
Mas para entender a crise alvinegra é preciso retroceder pelo menos 30 anos, quando o clube era quase imbatível e tinha sem seus dirigentes o hábito de ‘importar’ jogadores de outros estados para a montagem de seus elencos. Foi assim desde Lino Miranda, com o tetracampeonato em 1979/1980/81 e 82), passando por José Luís Paes de Barros, Orlando Craici, o ‘maluco’ campeão Júlio Pinheiro, até chegar a figura de Éder Moraes. Nenhum deles se preocupou em organizar as categorias de base do clube; o celeiro de onde surgem talentos para o clube e futuras negociações que fazem caixa. É assim em todo clube organizado, em que pese a existência de alguns clubes-empresa cujos objetivos não são obter lucros, apenas gastar o dinheiro que por ali passa.
O então homem forte dos governos Blairo Maggi e Silval Barbosa havia recém deixado o comando da Secretaria de Fazenda para gerenciar a Agecopa/Secopa, no lugar de Adilton Sachetti. Habilidoso, articulado e muito bem relacionado, Moraes usou de seu ‘poder oficial’ para persuadir empresários a investirem no Mixto. Assim, vieram marcas de bancos, multinacionais de refrigerantes e também jogadores em fim de carreira, como Perdigão, Gabiru e Finazzi, entre outros. Treinadores patrocinavam orgias em hotéis cinco estrelas, regadas a garrafas de vinho de R$ 3 mil e havia ônibus especial para os atletas não caminharem 500 metros do hotel ao CT.
Mas, como dinheiro não aceita desaforo, a ‘Era Moraes’ sucumbiu com sua prisão. Na prestação de contas, Vivaldo Lopes, seu braço direito, mostrou despesas de R$ 5 milhões para um dos maiores fiascos da história do futebol regional.
Sem presidente e endividado, o clube caiu na desgraça e seria punido pela FMF com uma suspensão caso não disputasse o Campeonato Mato-grossense. Na eleição para eleger o sucessor de Moraes, muitos críticos, mas apenas um candidato: Paulo Cezar Gatão, um torcedor apaixonado pelo clube, ex-gandula do Verdão que decidiu peitar o desafio, para o espanto dos conselheiros que não tiveram a mesma coragem.
Com o clube completamente dividido em várias facções e sem apoio do Conselho Deliberativo, Gatão então decidiu terceirizar o futebol para um grupo de pastores de Campinas-SP. Na semana passada um contrato deveria ter sido assinado com os ‘investidores’ e jogadores foram trazidos pelo grupo paulista (soube-se esta semana que tal contrato não existe). Em parceria com a secretaria de Esportes local Gatão montou a base do time em Chapada dos Guimarães.
Para a diretoria mixtense não podia haver melhor negócio; afinal o tal grupo levou o ‘problema’ para longe, e, como disse o próprio presidente: “Eles vão bancar tudo, só vamos dar água e gelo”.
Mas não é tão simples assim. Tal qual aqueles que acionaram o Mixto no passado, mesmo sem ter direito a receber pelo que não fizeram, os atuais atletas que disputarão a Copa FMF não tem qualquer comprometimento com a história e os valores do clube, assim como seus dirigentes aparentam também não os ter.
Profundamente lamentável!
Fonte: Craques do Rádio - Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta, edição deste sábado, 26.9.2015